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Produtividade cresce, jornada não cai: o que aconteceu com a previsão de Keynes | Notícias

redacao by redacao
23/06/2026
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Produtividade cresce, jornada não cai: o que aconteceu com a previsão de Keynes | Notícias
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Há quase um século, o economista britânico John Maynard Keynes projetou um futuro em que os avanços tecnológicos permitiriam uma drástica redução da jornada de trabalho. Em sua visão, o aumento contínuo da produtividade seria capaz de garantir o bem-estar material da população com apenas 15 horas de trabalho por semana. No entanto, passadas décadas de transformações econômicas e tecnológicas, a realidade dos trabalhadores continua muito diferente desse cenário.

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A reflexão de Keynes surgiu em um contexto de crise econômica mundial e pelo avanço acelerado da industrialização. Para ele, a combinação entre inovação tecnológica, crescimento da capacidade produtiva e desenvolvimento econômico levaria a uma sociedade menos dependente do trabalho para garantir a sobrevivência.

LEIA: Antonio Neto: Reduzir a jornada é repartir com trabalhadores os ganhos de produtividade

O economista acreditava que, ao superar as necessidades materiais básicas, as pessoas poderiam dedicar mais tempo ao lazer, à cultura, à educação, ao convívio social e ao desenvolvimento pessoal. O trabalho deixaria de ocupar posição central na vida humana, abrindo espaço para uma sociedade mais equilibrada e menos orientada pela busca incessante por renda e acumulação de riqueza.

Produtividade cresceu, mas jornadas continuam extensas

Embora a previsão sobre o crescimento da produtividade tenha se confirmado em grande medida, o mesmo não aconteceu com a redução das jornadas. O avanço da automação, da informatização e, mais recentemente, da inteligência artificial permitiu produzir mais bens e serviços com menos esforço humano direto.

Ainda assim, milhões de trabalhadores continuam submetidos a jornadas extensas e, em muitos casos, convivem com novas formas de intensificação do trabalho. A ampliação da conectividade digital, por exemplo, tornou comum a expectativa de disponibilidade permanente, dificultando a separação entre tempo de trabalho e tempo de descanso.

Para a economista e diretora-adjunta do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), Patrícia Pelatieri, um dos fatores que ajudam a explicar essa diferença entre previsão e realidade é a forma como os ganhos de produtividade foram distribuídos ao longo das últimas décadas.

“Uma parcela significativa dos benefícios do progresso técnico foi apropriada na forma de lucros e rendimentos de capital. O problema, entretanto, não está na tecnologia em si, mas na forma como seus benefícios são distribuídos. A questão central é quem se apropria dos ganhos gerados pelo aumento da produtividade. Em vez de se converter automaticamente em mais tempo livre, o avanço tecnológico muitas vezes resulta em maior concentração de renda ou novas formas de intensificação do trabalho”, diz.

Isso significa que o aumento da capacidade produtiva não resultou, necessariamente, em mais tempo livre para quem trabalha. Em muitos casos, os trabalhadores precisaram manter ou até ampliar sua carga de trabalho para sustentar seu padrão de vida diante das transformações econômicas e sociais.

Novas necessidades e novos padrões de consumo

Ao longo do século XX e do início do século XXI, produtos e serviços que não existiam passaram a integrar o cotidiano da população. Tecnologias de comunicação, internet, dispositivos eletrônicos e diversos serviços digitais se tornaram parte da vida moderna, transformando as necessidades da sociedade.

Com isso, as demandas de consumo se expandiram. O que antes era visto como conforto passou a ser percebido como necessidade, aumentando a pressão sobre a renda das famílias e mantendo a dependência do trabalho remunerado.

Tecnologia não garante mais qualidade de vida

A experiência das últimas décadas demonstra que o avanço tecnológico, por si só, não assegura jornadas menores nem melhores condições de trabalho.

Sem mecanismos capazes de transformar esses ganhos em mais direitos, melhores salários e redução da jornada, a tecnologia pode acabar servindo apenas para ampliar a produção e os lucros, sem gerar benefícios proporcionais para os trabalhadores.

Se a humanidade produz cada vez mais riqueza com menos esforço, o desafio permanece o mesmo apontado há quase cem anos: transformar o progresso técnico em melhoria efetiva da qualidade de vida da população.





Fonte da matéria https://mundosindical.com.br/Noticias/View.aspx?ID=69332

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