Publicado: 11 Setembro, 2026 – 15h16 | Última modificação: 11 Setembro, 2026 – 15h23
Os trabalhadores e as trabalhadoras do Centro Paula Souza (CPS) estão mobilizados para uma greve no dia 15 de setembro. A paralisação foi convocada pelo Sindicato dos Trabalhadores do Centro Paula Souza (SINTEPS) diante da falta de negociação efetiva com o governo do estado de São Paulo sobre a Data-Base 2026 e da necessidade de recomposição das perdas salariais da categoria.
“Em quatro anos de governo Tarcísio tivemos reajustes apenas em dois anos, nos outros dois anos, incluindo este, amargamos no zero. Pedimos, pelo menos, o reajuste da inflação e uma negociação da data-base, algo que nunca conseguimos fazer”, explica o presidente do SINTEPS, Fernando Salvador.
O presidente do sindicato afirma que a greve também é pelo direito de ser ouvido. “Em nenhum momento o governo do estado se mostrou aberto a conversar com os trabalhadores. Age como se tivesse à frente de uma empresa privada, não conversa com os servidores públicos”, desabafa.
Os profissionais acumulam anos de perdas salariais, precarização das condições de trabalho e promessas não cumpridas pelo governo de São Paulo. Uma das principais reivindicações é a revisão do plano de carreira, prometida pelo governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) ainda no início da gestão, mas que segue sem sair do papel.
“O governo prometeu logo no começo do mandato que destravaria a carreira. Já estamos no fim do governo e nada aconteceu. O texto foi e voltou várias vezes, mudou constantemente ao longo desses anos. Me parece que é uma estratégia para ganhar tempo”, afirma Felipe Roberto Martins, professor da Etec de Suzano e diretor executivo do SINTEPS.
A revisão de carreira é considerada fundamental para enfrentar a desvalorização salarial que atinge professores, auxiliares docentes e funcionários administrativos das ETECs e FATECs. Segundo o dirigente sindical, a situação é especialmente grave entre os técnicos administrativos.
“Temos funcionários recebendo menos de dois salários mínimos para cumprir jornadas de 40 horas semanais. Isso faz com que muitas pessoas não permaneçam na instituição. O salário está extremamente defasado”, denuncia.
Sem reajuste em 2026
Em 2026, os trabalhadores do Centro Paula Souza não tiveram reajuste salarial. Durante o governo Tarcísio, o conjunto do funcionalismo estadual recebeu 6% de reajuste em 2023, ficou sem reajuste em 2024 e teve 5% em 2025. Para o SINTEPS, os índices não foram suficientes para repor as perdas provocadas pela inflação, comprometendo o poder de compra dos trabalhadores.
A pauta da Data-Base 2026 apresentada pelo sindicato inclui reajuste salarial de 15,38%, recomposição das perdas acumuladas, redução da jornada dos técnicos-administrativos para 36 horas semanais, ampliação de benefícios e valorização das carreiras.
Em março, o SINTEPS entregou ao governo estadual a pauta de reivindicações construída a partir das demandas da categoria. Segundo o sindicato, porém, a resposta do governo foi genérica e não resultou em uma negociação concreta dos itens apresentados.
A entidade também destaca que a legislação eleitoral não impede a recomposição das perdas inflacionárias. A restrição prevista para o período eleitoral se refere à concessão de revisão geral que ultrapasse a perda do poder aquisitivo ocorrida no próprio ano. Para a categoria, portanto, não há justificativa para que os salários permaneçam sem qualquer recomposição em 2026.
“Data-base não pode significar simplesmente entregar uma pauta e receber uma carta em resposta. Negociar significa sentar à mesa, discutir as reivindicações, apresentar propostas e buscar soluções”, defende o sindicato.
Benefícios e condições de trabalho
Entre as reivindicações também está a concessão de vale-alimentação para todos os trabalhadores do CPS. Atualmente, o benefício é restrito a uma parcela dos servidores, de acordo com a faixa salarial.
O sindicato também reivindica a ampliação do auxílio-transporte e do auxílio-combustível, reajuste do auxílio-creche e atualização das normas internas para atender trabalhadores responsáveis pelos cuidados de idosos ou pessoas com deficiência.
Outro problema apontado pela categoria é a precarização dos vínculos de trabalho. Segundo Felipe, diversos docentes contratados nas ETECs não recebem o piso salarial incorporado ao salário-base.
“Muitos professores de educação básica não recebem o piso. O governo paga parte da remuneração em forma de abono, e o abono não entra no cálculo de férias, 13º salário ou rescisão contratual”, explica.
O sindicato também denuncia a ampliação dos contratos por tempo determinado. Nessa modalidade, os professores são contratados por até dois anos, sem a estabilidade garantida aos docentes concursados.
“É uma contratação bastante precarizada, que temos denunciado sistematicamente. O trabalhador exerce as mesmas funções, mas sem os mesmos direitos”, afirma.
A falta de concursos públicos também preocupa a categoria. O SINTEPS defende a realização de concursos regionais, em substituição ao modelo atual, realizado por unidade de ensino, o que reduz as possibilidades de ingresso dos candidatos e dificulta a reposição de profissionais.
Estrutura precária
Além das questões salariais, os trabalhadores apontam a deterioração da infraestrutura das unidades. Segundo relatos, há escolas que não passam por pintura há mais de dez anos, problemas de manutenção que permanecem sem solução e falta de materiais básicos para atividades pedagógicas.
“Tem escola com canos estourados, problemas estruturais antigos e até presença de pombos nas áreas de alimentação. Em muitos casos, os materiais pedidos para laboratórios demoram meses para chegar. Há professores que precisam tirar dinheiro do próprio bolso para imprimir provas dos alunos”, relata Felipe.
A situação também afeta os serviços terceirizados. De acordo com o sindicato, empresas contratadas frequentemente descumprem obrigações trabalhistas, atrasam pagamentos e abandonam contratos, prejudicando principalmente trabalhadores e trabalhadoras da limpeza.
O SINTEPS também cobra a ampliação dos afastamentos remunerados para qualificação profissional. Hoje, professores podem solicitar afastamento parcial para cursar mestrado ou doutorado, mas os funcionários técnico-administrativos não possuem o mesmo direito. Além disso, segundo o sindicato, a falta de reposição de pessoal tem levado a instituição a dificultar a liberação de servidores para atividades de formação.
Enquanto algumas demandas avançam lentamente, como a devolução do tempo de serviço congelado durante a pandemia, a avaliação da categoria é de que o governo estadual segue sem abrir um processo efetivo de negociação.







