Publicado: 21 Agosto, 2026 – 09h33 | Última modificação: 21 Agosto, 2026 – 10h02
Durante muito tempo, a história do movimento sindical foi “aprendida e relatada quase sempre só no masculino”. A reflexão de Dídice Godinho Delgado, primeira coordenadora da Comissão Nacional sobre a Questão da Mulher Trabalhadora da CUT e quadro histórico da central regasta a participação das trabalhadoras no enfrentamento a esse apagamento. Também permite compreender que as políticas para as mulheres não surgiram prontas. Elas foram construídas nos sindicatos, encontros, plenárias e congressos da CUT.
Nesta segunda matéria da série especial sobre os 40 anos das políticas para as mulheres na CUT, mostramos como essa organização interferiu nas decisões da Central. A cada período, novas propostas foram apresentadas. Algumas demoraram anos para serem aprovadas. Outras precisaram de novas decisões para sair do papel.
Os CONCUTs registram parte desse caminho.
Foi nesses espaços que as mulheres conquistaram uma organização nacional, abriram o debate sobre ações afirmativas, instituíram as cotas, criaram a Secretaria Nacional da Mulher Trabalhadora e chegaram à paridade.
Também foi nos congressos que pautas como igualdade salarial, creches, cuidado, proteção à maternidade, direitos das trabalhadoras domésticas, direitos reprodutivos e enfrentamento à violência ganharam espaço nas resoluções da CUT.
Por trás de cada decisão estavam mulheres concretas. Dirigentes e militantes que formularam propostas, enfrentaram resistências e fizeram a CUT olhar para desigualdades que também existiam dentro do movimento sindical.
1986: Dídice e o nascimento da organização nacional
A trajetória ganhou forma institucional no 2º CONCUT, realizado em 1986.
Dídice presidia o Sindicato dos Assistentes Sociais do Estado de São Paulo quando foi chamada por outras sindicalistas para participar da elaboração de uma proposta destinada ao congresso.
“Minha militância no campo das relações de gênero e do feminismo começou dentro do movimento sindical”, relata Dídice na publicação Mulheres na CUT: uma história de muitas faces.
A proposta defendia a criação de uma comissão nacional voltada às questões das trabalhadoras. A aprovação deu origem à Comissão Nacional sobre a Questão da Mulher Trabalhadora, implementada em março de 1987.
A decisão garantiu um espaço permanente de articulação. A comissão passou a organizar demandas, realizar encontros e pressionar para que as reivindicações das mulheres chegassem às decisões gerais da Central.
Dídice coordenou a comissão entre 1987 e 1993. Seu período à frente da organização coincidiu com os primeiros esforços para consolidar uma política nacional e ampliar a presença das mulheres nos estados e nas categorias.
O desafio era duplo. As sindicalistas precisavam enfrentar a desigualdade no mercado de trabalho e na sociedade. Ao mesmo tempo, tinham de questionar a baixa participação feminina nas direções e nos espaços de poder do próprio sindicalismo.
1988: combater a discriminação passou a ser tarefa da CUT
Dois anos depois, o 3º CONCUT ampliou o alcance da decisão tomada em 1986.
O enfrentamento às diferentes formas de opressão e discriminação passou a integrar a concepção e a prática sindical da CUT. A política para as mulheres deixava de ser responsabilidade apenas da comissão.
Naquele mesmo período, o 1º Encontro Nacional sobre a Questão da Mulher Trabalhadora aprovou o dia 12 de outubro como Dia Nacional de Luta por Creche.
A campanha “Creche para todos” mostrou como a organização das mulheres mudou o conteúdo das reivindicações sindicais.
A ausência de creches não era somente um problema familiar. Ela dificultava o acesso ao emprego, limitava a autonomia econômica e impedia muitas mulheres de participar de assembleias, reuniões e direções sindicais.
Ao levar o cuidado para a agenda da CUT, as trabalhadoras mostraram a ligação entre a vida dentro e fora dos locais de trabalho.
1991: a CUT reconhece a desigualdade dentro do sindicalismo
O 4º CONCUT, em 1991, abriu uma nova etapa.
O congresso reconheceu que mulheres e homens não encontravam as mesmas oportunidades de participação política. Embora estivessem presentes nas categorias e mobilizações, as trabalhadoras ainda eram minoria nos cargos de direção.
Esse reconhecimento permitiu avançar no debate sobre ações afirmativas. A proposta era adotar medidas concretas para modificar uma estrutura marcada pela desigualdade.
Não bastava defender genericamente a participação das mulheres. Era necessário criar regras para que elas chegassem aos espaços de decisão.
O congresso também aprovou a defesa da descriminalização e da legalização do aborto. A autonomia e os direitos reprodutivos passaram, assim, a integrar formalmente as resoluções da CUT.
A decisão mostrou que a política sindical poderia ultrapassar os limites das relações tradicionais de trabalho. Saúde, autonomia sobre o corpo e direito de decidir também afetavam a vida das trabalhadoras.
1993 e 1994: as cotas começam a mudar as direções
Em 1993, a 6ª Plenária Nacional aprovou uma cota mínima de 30% e máxima de 70% para cada sexo nas direções.
A medida surgiu como recomendação. Mesmo assim, representou uma mudança importante. Pela primeira vez, a CUT estabelecia um mecanismo objetivo para enfrentar a baixa presença das mulheres no poder sindical.
Naquele ano, Sandra Rodrigues Cabral assumiu a coordenação da Comissão Nacional sobre a Questão da Mulher Trabalhadora, sucedendo Dídice. Sandra permaneceu na função até 1994.
No 5º CONCUT, realizado em 1994, foi eleita a primeira direção nacional constituída conforme a política de cotas. A coordenação da comissão das mulheres também passou a integrar a Executiva Nacional da CUT.
A mudança permitiu que a política de gênero participasse mais diretamente das decisões da Central.
Luci Paulino de Aguiar assumiu a coordenação nacional naquele período e permaneceu até 1997. A continuidade do trabalho foi importante para acompanhar a aplicação das cotas e ampliar a organização nos estados e ramos.
As cotas não resolveram todas as desigualdades. Mas romperam uma barreira que dificilmente seria superada apenas com discursos favoráveis à participação feminina.
Em 1995, a Campanha pela Igualdade de Oportunidades na Vida, no Trabalho e no Movimento Sindical reforçou essa compreensão.
O nome da campanha reunia três dimensões da desigualdade. A discriminação estava presente nas relações sociais, no mercado de trabalho e nas estruturas sindicais. Era preciso atuar nas três frentes.
De 1997 a 2003: Maria Ednalva e a transformação da comissão em secretaria
Maria Ednalva Bezerra de Lima assumiu a coordenação nacional em 1997. Durante sua gestão, a organização das mulheres avançou na defesa da igualdade de oportunidades, da participação política e da incorporação das relações de gênero às diferentes áreas de atuação da CUT.
Em 2003, o 8º CONCUT aprovou a criação da Secretaria Nacional da Mulher Trabalhadora e das secretarias estaduais.
A decisão foi tomada 17 anos depois da criação da comissão.
A passagem de comissão para secretaria deu caráter permanente à política. Ampliou sua presença na estrutura da CUT e fortaleceu as condições para formular propostas, realizar campanhas e dialogar com as diferentes secretarias, categorias e direções estaduais.
Maria Ednalva tornou-se a primeira secretária nacional da Mulher Trabalhadora da CUT.
A criação da secretaria não representou apenas uma alteração de nome. Foi o reconhecimento de que a política para as mulheres deveria fazer parte da direção e do funcionamento cotidiano da Central.
No mesmo ano, a CUT desenvolveu a campanha “Violência contra as mulheres: tolerância nenhuma!”.
A iniciativa ajudou a aproximar a atuação sindical de um problema que, durante muito tempo, foi tratado como assunto privado. A violência atingia a saúde, a segurança, a autonomia e a capacidade de permanência das mulheres no trabalho e na vida pública.
Maria Ednalva permaneceu à frente da secretaria até sua morte, em setembro de 2007. Seu trabalho marcou a transição entre a fase de organização por meio da comissão e a consolidação de uma estrutura permanente.
2008 e 2009: cotas obrigatórias e novas bandeiras
Em 2008, a 12ª Plenária Nacional deu outro passo. A política de cotas passou a integrar o estatuto da CUT.
A medida deixou de ser uma recomendação. Tornou-se uma regra obrigatória para as instâncias da Central.
A mudança mostrou que a presença das mulheres não poderia depender apenas da disposição de cada direção. A igualdade precisava estar amparada pelas normas da organização.
Rosane da Silva assumiu a Secretaria Nacional da Mulher Trabalhadora em 2009 e permaneceu até 2015.
No 10º CONCUT, realizado em 2009, a agenda apresentada pelas mulheres já reunia um conjunto mais amplo de políticas.
Entre as reivindicações estavam a igualdade salarial e a equiparação dos direitos das trabalhadoras domésticas. O congresso também reafirmou a defesa dos direitos reprodutivos e da aplicação da Lei Maria da Penha.
As decisões aproximaram a política sindical das condições concretas vividas pelas mulheres.
A diferença salarial restringia a autonomia. A falta de direitos atingia especialmente as trabalhadoras domésticas. A violência comprometia o direito ao trabalho, à saúde e à própria vida.
A organização das mulheres ajudava a CUT a compreender que essas desigualdades faziam parte da exploração do trabalho e precisavam estar presentes na ação sindical.
2010 e 2012: da experiência das cotas à aprovação da paridade
A política de cotas ampliou a participação feminina, mas não encerrou a disputa pelo poder.
As mulheres continuavam enfrentando obstáculos para chegar aos principais cargos. Mesmo quando eleitas, muitas dirigentes não tinham liberação sindical, infraestrutura ou condições iguais para participar das negociações e decisões.
Em 2010, a 13ª Plenária Nacional aprovou o início do debate sobre a paridade.
A proposta era superar a participação mínima estabelecida pelas cotas. Mulheres e homens deveriam ocupar, em condições iguais, as direções da CUT.
Dois anos depois, no 11º CONCUT, a paridade foi aprovada.
A resolução estabeleceu a composição de 50% de mulheres e 50% de homens nas direções executivas nacional e estaduais.
A conquista foi resultado de mais de duas décadas de organização. O caminho começou com o reconhecimento da desigualdade, passou pelas ações afirmativas e pela política de cotas e chegou à divisão igualitária das vagas.
O 11º CONCUT também ampliou a agenda de direitos.
Entre as propostas estavam a ampliação da licença-maternidade e a defesa dos direitos das trabalhadoras domésticas. A CUT também apoiou a Convenção 189 da Organização Internacional do Trabalho, voltada ao trabalho doméstico decente.
A paridade foi uma mudança interna. A defesa das trabalhadoras domésticas e da proteção à maternidade apontava para transformações no mercado de trabalho e nas políticas públicas.
As duas dimensões faziam parte da mesma luta: garantir que as mulheres tivessem direitos, autonomia e poder de decisão.
2015: paridade sai da resolução e chega às direções
O 12º CONCUT, realizado em 2015, foi o primeiro com a aplicação da paridade nas direções executivas nacional e estaduais.
A decisão aprovada três anos antes finalmente chegou à composição dos espaços de poder.
Junéia Martins Batista assumiu a Secretaria Nacional da Mulher Trabalhadora naquele congresso e permaneceu na função até 2023.
A aplicação da paridade representou uma mudança visível. Mas também deixou claro que igualdade numérica não significa, automaticamente, igualdade política.
Para exercer os mandatos, as dirigentes precisam participar das negociações, acompanhar as decisões e contar com condições concretas para a atividade sindical. Também precisam ocupar funções com poder real de intervenção.
O congresso manteve a defesa das creches públicas em período integral e de políticas capazes de distribuir as responsabilidades pelo cuidado.
O enfrentamento ao assédio moral e sexual permaneceu na pauta. As mulheres também resistiram às tentativas de restringir os direitos reprodutivos.
A paridade alterou quem estava presente nas direções. As demais resoluções mostraram que também era necessário transformar os temas debatidos e as prioridades da ação sindical.
2019: proteção social, cuidado e combate às violências
O 13º CONCUT, realizado em 2019, ocorreu em um período marcado por ataques aos direitos trabalhistas, à Previdência e às políticas públicas.
As mulheres participaram das mobilizações contra as reformas e contra a precarização do trabalho. Nas resoluções, relacionaram igualdade de gênero, emprego, renda e proteção social.
As propostas incluíam valorização do salário mínimo, criação de empregos de qualidade e combate à discriminação.
Também defendiam políticas para mulheres desempregadas e trabalhadoras informais. A maternidade não poderia significar ausência de renda ou exclusão da proteção social.
Os serviços públicos de cuidado voltaram a aparecer como condição para a autonomia econômica. O congresso também apontou a necessidade de fortalecer a presença feminina nos espaços de representação.
O enfrentamento à violência ganhou novas dimensões.
Além do assédio nos locais de trabalho, as resoluções trataram do feminicídio, da violência obstétrica e da necessidade de ampliar os serviços públicos de atendimento às mulheres.
A agenda construída ao longo dos congressos se tornava mais abrangente. Passava a considerar que raça, território, renda, atividade profissional e orientação sexual produzem experiências diferentes de desigualdade.
2023: igualdade salarial, cuidado e enfrentamento ao assédio
O 14º CONCUT, em 2023, abriu outro período dessa trajetória.
Depois de anos de resistência à retirada de direitos, as trabalhadoras voltaram a discutir a reconstrução e a ampliação das políticas públicas.
A Lei da Igualdade Salarial, sancionada naquele ano, passou a integrar as prioridades da CUT. A luta envolvia defender a aplicação da legislação, cobrar transparência das empresas e combater as diferenças de remuneração entre mulheres e homens.
A economia do cuidado também ganhou maior destaque.
As mulheres defenderam uma política nacional capaz de reconhecer o cuidado como direito e como responsabilidade compartilhada entre Estado, famílias, empresas e sociedade.
A reivindicação dava continuidade à luta por creches iniciada nos primeiros anos da comissão. Ao mesmo tempo, ampliava o debate para incluir o cuidado com pessoas idosas, com deficiência e com quem necessita de apoio.
O congresso também reforçou a necessidade de prevenir e enfrentar discriminação, assédio e violência dentro do movimento sindical.
Essa discussão dialogava com a Convenção 190 da Organização Internacional do Trabalho, que reconhece o direito a um mundo do trabalho livre de violência e assédio.
Amanda Gomes Corcino foi eleita secretária nacional da Mulher Trabalhadora no 14º CONCUT.
Sua chegada à secretaria representa a continuidade de uma construção iniciada por Dídice e conduzida, em diferentes períodos, por Sandra Rodrigues Cabral, Luci Paulino de Aguiar, Maria Ednalva Bezerra de Lima, Rosane da Silva e Junéia Martins Batista.
Cada dirigente atuou em um momento distinto. Todas participaram de uma trajetória coletiva, sustentada por mulheres dos sindicatos, ramos e CUTs estaduais.
Instância de essencial importância na CUT, o Coletivo de Mulheres organiza, fortalece e dá visibilidade às demandas das trabalhadoras no movimento sindical.
O Coletivo de Mulheres da CUT é um espaço de organização, formação e resistência das trabalhadoras. Sua atuação é fundamental para que pautas como igualdade salarial, creches, combate à violência e ao assédio e valorização do trabalho das mulheres estejam presentes na luta sindical, nas negociações coletivas e no debate público.
Em âmbito nacional, o coletivo é formado pela articulação dos coletivos estaduais e dos ramos da CUT. Essa organização fortalece a troca de experiências, a construção de propostas comuns e a presença das demandas das trabalhadoras nas diferentes instâncias da central sindical.
Mulheres que transformaram as decisões da CUT
Os congressos permitem acompanhar como as reivindicações foram se transformando em políticas da Central.
Em 1986, as mulheres conquistaram uma comissão nacional. Em 1991, a CUT reconheceu a desigualdade na participação política. Em 1993, vieram as cotas. Em 2003, a comissão se tornou secretaria. Em 2008, as cotas entraram no estatuto. Em 2012, foi aprovada a paridade, aplicada a partir de 2015.
Ao mesmo tempo, a agenda avançou para além da estrutura interna.
Creches, igualdade salarial, trabalho doméstico, proteção à maternidade, direitos reprodutivos, cuidado e enfrentamento às diferentes formas de violência passaram a fazer parte das decisões da CUT.
As conquistas não seguiram uma linha automática. Entre a apresentação de uma proposta e sua aplicação, muitas vezes houve anos de debate, organização e pressão.
Também não foram obra de uma única dirigente.
Dídice e as coordenadoras e secretárias que vieram depois representam uma construção feita por milhares de mulheres. Trabalhadoras que participaram de congressos, plenárias, encontros, campanhas, greves e negociações.
Ao levar suas experiências para esses espaços, elas mudaram as resoluções, a estrutura e a composição das direções.
Mudaram também o entendimento sobre o papel do sindicalismo.
Questões consideradas privadas, como o cuidado, a maternidade e a violência doméstica, passaram a ser reconhecidas como problemas políticos, sociais e relacionados ao mundo do trabalho.
Contar essa história significa tornar visíveis as mulheres que mudaram a CUT. Significa reconhecer que cada política conquistada nasceu da organização de trabalhadoras que decidiram participar, disputar e transformar os espaços de poder.










