Publicado: 04 Junho, 2026 – 12h37 | Última modificação: 04 Junho, 2026 – 13h08
Teve início nesta quinta-feira (4), na sede da Apeoesp, em São Paulo, o 7º Encontro Nacional de Trabalhadores e Trabalhadoras LGBTQIA+ da CUT. A atividade segue até domingo (7), quando os participantes também se somam às mobilizações da Parada do Orgulho LGBTQIA+ de São Paulo, a maior do mundo e que, em 2026 a CUT passa a integrar oficialmente. Marco do Encontro do Coletivo também será a 2ª Marcha da Classe Trabalhadora LGBTQIA+ da CUT, nesta sexta-feira (6)
Reunindo dirigentes sindicais, representantes de confederações, federações, sindicatos e movimentos sociais de diversas regiões do país, o encontro debate os desafios enfrentados pela população LGBTQIA+ no mundo do trabalho, a defesa da democracia, o combate à violência e a ampliação de direitos.
A abertura contou com a participação do secretário nacional LGBTQIA+ da CUT, Walmir Siqueira; do secretário-geral da CUT Nacional, Renato Zulato; do secretário-geral da CUT São Paulo, Daniel Calazans; e do presidente do Conselho Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+ e dirigente da Confederação Nacional dos Trabalhadores e Trabalhadoras em Educação (CNTE), Zezinho Prado. Em comum, as intervenções defenderam o fortalecimento da organização sindical da comunidade LGBTQIA+, a ampliação da participação política e a mobilização para as eleições de 2026, apontadas como decisivas para a continuidade e ampliação de direitos.
Ao abrir o encontro, o secretário nacional LGBTQIA+ da CUT, Walmir Siqueira, destacou o crescimento da participação da comunidade nas estruturas sindicais e afirmou que o desafio agora é ampliar a organização nos estados e nos ramos de atividade. Segundo ele, a segunda Marcha LGBTQIA+ da Classe Trabalhadora busca reforçar a presença da pauta nas ruas e contribuir para recolocar a dimensão política no centro das mobilizações da comunidade.
Representando a direção nacional da CUT, o secretário-geral Renato Zulato defendeu a ampliação da organização LGBTQIA+ dentro da Central e afirmou que a criação das futuras secretarias estaduais da área será uma das tarefas estratégicas do próximo período. Ele também relacionou a defesa dos direitos da comunidade à disputa política nacional e à necessidade de eleger representantes comprometidos com a democracia e os direitos da classe trabalhadora.
Para o secretário-geral da CUT São Paulo, Daniel Calazans, a luta da população LGBTQIA+ está diretamente ligada à defesa da democracia e à ampliação de direitos sociais. Em sua intervenção, ele ressaltou a importância da organização da classe trabalhadora diante do avanço de setores conservadores e lembrou que a Marcha LGBTQIA+ da Classe Trabalhadora chega à segunda edição como instrumento de mobilização política e sindical.
Presidente do Conselho Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+ e dirigente da CNTE, Zezinho Prado avaliou que a comunidade vive um momento decisivo de reorganização política. Ao lembrar o período de retrocessos vivido durante o governo Bolsonaro, ele defendeu maior participação da população LGBTQIA+ nos espaços de poder, a criação de novas secretarias da pauta nos estados e o fortalecimento da presença do movimento sindical na Parada do Orgulho LGBT+ de São Paulo.
Eleições, democracia e disputa por direitos
Na análise de conjuntura que orientará os debates do 7º Encontro Nacional de Trabalhadores e Trabalhadoras LGBTQIA+ da CUT nos próximos dias, a secretária nacional LGBTQIA+ do PT, Janaína Oliveira, e o educador da Rede Nacional de Formação da CUT, Pérsio Plensak, defenderam que a luta pelos direitos da população LGBTQIA+ está diretamente ligada à disputa política travada no país e à capacidade de organização da comunidade nos espaços de poder.
Um dos pontos centrais da exposição foi a avaliação de que a extrema direita segue utilizando a pauta dos costumes como instrumento de mobilização política. Segundo os debatedores, ataques aos direitos da população LGBTQIA+, às políticas de igualdade e às iniciativas de combate à discriminação fazem parte de uma estratégia mais ampla de fortalecimento de projetos autoritários e de enfraquecimento da participação social.
Ao abordar o cenário nacional, Janaína afirmou que as eleições de 2026 terão impacto direto sobre a continuidade das políticas públicas voltadas à população LGBTQIA+ e sobre a própria correlação de forças que definirá os rumos da democracia brasileira.
“Todo mundo já deve ter ouvido a frase de que esta é a eleição das nossas vidas. E, por uma grande ironia do destino, ela é de fato a eleição das nossas vidas”, afirmou.
Segundo a dirigente, a comunidade LGBTQIA+ esteve entre os principais alvos do avanço da extrema direita nos últimos anos. Ao recuperar o período iniciado em 2019, ela avaliou que os ataques à diversidade foram utilizados como instrumento de mobilização política e eleitoral.
“Nós vivenciamos um período fascista que teve um alvo direcionado a cada um dos corpos LGBTQIA+ deste país”, disse.
Janaína também destacou como a disseminação de notícias falsas e a construção de narrativas de medo ajudaram a impulsionar setores conservadores. “O kit gay nunca existiu. A gente nunca teve o privilégio de ter o famoso kit gay. Mas ele foi um grande mote de campanha para ajudar o fascismo e o conservadorismo a ocupar espaço nas estruturas de poder deste país”, afirmou.
Para a dirigente, a defesa dos direitos da população LGBTQIA+ exige que os movimentos sociais disputem não apenas as ruas, mas também os espaços institucionais onde são tomadas decisões que afetam a vida da população.
“Se a gente não mexe nessas estruturas, que são as estruturas que determinam as nossas vidas, a gente não consegue garantir a nossa existência”, afirmou.
Ao tratar da participação eleitoral, Janaína defendeu que a comunidade LGBTQIA+ não seja vista apenas como um segmento eleitoral já incorporado aos campos democráticos, mas como sujeito político capaz de apresentar demandas próprias e cobrar compromissos concretos.
“Precisamos ter a tarefa de lembrar a esquerda brasileira da importância de falar sobre nós em todo o processo eleitoral”, afirmou.
Segundo ela, esse debate não pode ser tratado como algo secundário ou automático. “Ela não pode ser naturalizada, porque também há uma concepção da parte da esquerda deste país de que já conta com a nossa participação e com a nossa presença”, disse.
A dirigente argumentou ainda que a comunidade precisa intervir diretamente na formulação das políticas públicas e cobrar respostas dos ocupantes dos cargos de poder. “A gente precisa fazer uma intervenção nesses espaços de ocupação de poder sobre qual é a política que a gente espera que esses mandatos, ou que o governador, ou o presidente da República precisem fazer”, defendeu.
Outro ponto destacado por Janaína foi a necessidade de transformar conquistas pontuais em políticas permanentes de Estado. Segundo ela, a dependência exclusiva de governos específicos torna direitos historicamente conquistados vulneráveis a mudanças na conjuntura política.
“Não ter política de Estado implica que, a cada processo eleitoral, nós vamos viver um pânico”, alertou.
A dirigente também chamou atenção para a importância da disputa orçamentária e da participação social nos espaços onde são definidas prioridades de governo. Para ela, a efetivação dos direitos passa necessariamente pela capacidade de influenciar decisões sobre recursos públicos e estruturas institucionais.
A construção da luta sindical LGBTQIA+
Ao complementar a análise, Pérsio Plensak relacionou o avanço da extrema direita a um fenômeno internacional e alertou para o crescimento de iniciativas que buscam restringir direitos da população LGBTQIA+ em diferentes países.”Há vários países que começam a criminalizar cada vez mais a existência das pessoas LGBT”, observou.
Segundo ele, esse movimento foi acompanhado pela construção de discursos de desinformação que transformaram a diversidade em alvo permanente de ataques políticos. “Criaram histórias, palavras como ‘ideologia de gênero’, tocando o terror e criando um pânico moral”, afirmou.
Pérsio também fez um resgate da trajetória da organização LGBTQIA+ dentro do movimento sindical, lembrando que a presença da CUT nas mobilizações do orgulho e a realização da Marcha LGBTQIA+ da Classe Trabalhadora são resultado de um longo processo de construção coletiva.
Ao recordar esse percurso, destacou que os avanços obtidos pela comunidade não surgiram de forma espontânea, mas foram fruto da atuação de militantes que, ao longo dos anos, disputaram espaço dentro das entidades sindicais, ampliaram o debate sobre diversidade e ajudaram a incorporar a pauta LGBTQIA+ às lutas da classe trabalhadora.
Para o educador, o fortalecimento da organização passa pela ocupação dos espaços estratégicos das entidades sindicais e não apenas pela criação de estruturas específicas para a pauta.
“Não caiam na armadilha de achar que basta criar secretarias. Nós temos que estar nas presidências, nas secretarias de finanças e nos espaços de decisão”, afirmou.
Ao mesmo tempo, ressaltou a importância das secretarias LGBTQIA+ para impulsionar o debate e garantir respostas organizadas diante dos ataques aos direitos da comunidade. “A secretaria é importante porque pauta, orienta e faz com que a organização compreenda e tome atitude diante dos ataques aos nossos direitos”, disse.
Programação segue até domingo
Após a abertura e a análise de conjuntura, o 7º Encontro Nacional de Trabalhadores e Trabalhadoras LGBTQIAPN+ da CUT prossegue com debates voltados à organização sindical, à formulação de políticas públicas e aos desafios enfrentados pela população LGBTQIA+ no mundo do trabalho.
O primeiro dia do encontro também contou com uam mesa temática sobre o comabte a feminicído, com a participação da secretária adjunta da Mulehr Trabalahdora da CUT, Mara Feltes. O momento destacou a campanha permanente de comatbe ao feminício oirentada pela CUT.
Nesta quinta-feira (4), a programação inclui uma visita à Feira Cultural da Diversidade e Empreendedorismo LGBTQIA+, marco do calendário do Mês do Orgulho que reúne dezenas de expositores, gastronomia, empregabilidade e shows no Anhangabaú, centro histórico de SP.
Na sexta-feira (5), os debates terão como foco os direitos LGBTQIA+ e o mundo do trabalho, reunindo representantes dos setores da educação e do serviço público para discutir inclusão, combate à discriminação e ampliação de direitos nos locais de trabalho.
Também está previsto o lançamento da cartilha da Confederação dos Trabalhadores no Serviço Público Municipal (Confetam) e uma atividade dedicada à formação política e às experiências de organização LGBTQIA+ desenvolvidas em diferentes regiões do país.
Ainda na sexta-feira, os participantes se somam à 2ª Marcha LGBTQIA+ da Classe Trabalhadora, iniciativa organizada pela CUT e entidades parceiras que busca reafirmar a presença do movimento sindical nas mobilizações do orgulho e fortalecer a defesa dos direitos da população LGBTQIA+.
O encontro será encerrado no sábado (6), em atividade realizada conjuntamente com o Conselho Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+, seguida pelo lançamento de uma pesquisa do Banco Mundial.
As atividades culminam no domingo (7), quando os integrantes do coletivo, dirigentes sindicais e militantes também marcarão presença na Parada do Orgulho LGBTIA+ de São Paulo, em um bloco especial. Para os organizadores, a participação coletiva reforça a articulação entre o movimento sindical e a luta da população LGBTQIA+ por cidadania, respeito, inclusão e direitos.












