Publicado: 06 Junho, 2026 – 12h52 | Última modificação: 06 Junho, 2026 – 13h06
O 7º Encontro Nacional de Trabalhadores e Trabalhadoras LGBTQIA+ da CUT chegou ao fim neste sábado (6) após três dias de debates, formação política, articulação sindical e mobilização social realizados na sede da APEOESP, em São Paulo. Reunindo dezenas de dirigentes e ativistas de todos os estados do país, a atividade consolidou a defesa dos direitos da população LGBTQIA+ como parte da luta da classe trabalhadora e reafirmou o papel do movimento sindical na construção de uma sociedade mais democrática e livre de discriminação.
Realizado entre os dias 4 e 6 de junho, durante o Mês do Orgulho LGBTQIA+, o encontro teve seu encerramento marcado pela atividade “Brasil de Todas as Cores – Democracia, Políticas Públicas LGBTQIA+ e Participação Social”, iniciativa organizada pela Secretaria Nacional LGBTQIA+ da CUT para debater os desafios da reconstrução democrática, da participação social e da consolidação de políticas públicas permanentes voltadas à população LGBTQIA+.
A programação, ao longo da manhã do sábado reuniu representantes do governo federal, pesquisadores, dirigentes sindicais, integrantes do Conselho Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+ e lideranças dos movimentos sociais para discutir caminhos capazes de transformar direitos conquistados em políticas públicas efetivas e duradouras.
Ao fazer um balanço do encontro, o secretário nacional LGBTQIA+ da CUT, Walmir Siqueira, destacou a importância da participação dos diversos ramos da Central e reforçou que a pauta LGBTQIA+ está diretamente ligada às reivindicações históricas da classe trabalhadora.
Segundo ele, os dias de atividades demonstraram que a luta contra a discriminação e pela igualdade de direitos não pode ser separada da luta por melhores condições de trabalho, renda e cidadania. “A nossa luta não é fragmentada, que a nossa luta também é a luta da classe trabalhadora”, afirmou durante o encerramento das atividades.
Democracia, participação social e políticas públicas
O último dia do encontro foi marcado pela realização da atividade “Brasil de Todas as Cores – Democracia, Políticas Públicas LGBTQIA+ e Participação Social”, iniciativa da Secretaria Nacional LGBTQIA+ da CUT criada para aprofundar o debate sobre os desafios da reconstrução democrática, o enfrentamento das desigualdades e a construção de políticas públicas capazes de garantir direitos de forma permanente à população LGBTQIA+.
A proposta da atividade partiu da compreensão de que direitos conquistados ao longo dos últimos anos precisam estar acompanhados de institucionalidade, orçamento, participação social e articulação entre diferentes setores da sociedade para se transformarem em políticas efetivas. Por isso, a programação reuniu representantes do governo federal, pesquisadores, dirigentes sindicais e lideranças dos movimentos sociais para discutir desde a produção de dados sobre a população LGBTQIA+ até os desafios de implementação da Política Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+.
Durante os debates, o presidente da Fundação Perseu Abramo, Brenno Almeida, ressaltou que a defesa da democracia e dos direitos da população LGBTQIA+ depende da construção permanente de espaços de diálogo entre Estado e sociedade civil.
Segundo ele, a participação social é indispensável para que direitos sejam não apenas reconhecidos, mas efetivamente garantidos. “A democracia é a única forma que nós temos para que a gente possa organizar a sociedade no sentido de garantir direito, garantir, manter e aprofundar”, afirmou.
Ao abordar os desafios da formulação de políticas públicas, Brenno destacou ainda que os movimentos sociais, sindicatos e organizações da sociedade civil precisam contribuir ativamente com propostas e soluções para o poder público. “Nós precisamos estar preparados para oferecer ao Estado a nossa capacidade de formulação”, defendeu.
Para ele, a organização popular não deve ocorrer apenas em momentos de crise ou em períodos eleitorais, mas fazer parte do cotidiano das entidades e dos territórios. “A articulação da sociedade não precisa de movimentos grandiosos. Ela precisa de organicidade”, afirmou, ao defender processos permanentes de mobilização, escuta e participação.
A secretária nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+ do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, Symmy Larrat, reforçou a importância da atuação conjunta entre governo e sociedade civil para ampliar direitos e enfrentar desigualdades históricas. Ao destacar os desafios da implementação das políticas públicas, ela lembrou que a disputa não se limita à criação de estruturas institucionais, mas envolve também a transformação da cultura política e dos espaços de poder.
“A gente precisa disputar a estrutura da comunicação. A gente tem que disputar isso, é disputar a estrutura do Estado também”, afirmou.
Symmy ressaltou ainda que a construção de políticas públicas voltadas à população LGBTQIA+ depende da capacidade de mobilização dos movimentos sociais, dos sindicatos e das organizações populares. “A gente precisa entender que a disputa não é só criar a estrutura”, disse.
Ao longo da atividade, também foram debatidos temas como a retomada das políticas públicas LGBTQIA+ no governo federal, o fortalecimento dos espaços de participação social, o papel do Conselho Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+, a implementação da Política Nacional LGBTQIA+ nos estados e municípios e a necessidade de transformar diagnósticos e pesquisas em programas, metas e ações concretas para combater desigualdades históricas.
Política nacional busca consolidar direitos e ampliar participação social
No encerramento do encontro, a secretária nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+ do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, Symmy Larrat, apresentou os avanços da Política Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+ e destacou os esforços para transformar reivindicações históricas do movimento em ações permanentes de Estado.
Segundo ela, a construção da política partiu de um cenário de ausência de diretrizes nacionais e de fragilidade institucional das ações voltadas à população LGBTQIA+.”A gente encontrou um terreno extremamente destruído, defenestrado, apagado de políticas públicas”, afirmou.
Symmy explicou que a política foi estruturada para criar mecanismos permanentes de articulação entre governo, estados, municípios e sociedade civil, além de fortalecer a produção de dados, o monitoramento das ações e a participação social. “A gente precisava construir esse lugar na política pública”, disse.
A secretária ressaltou ainda que a proposta busca reconhecer e incorporar experiências já desenvolvidas por movimentos sociais, organizações da sociedade civil e entidades sindicais. “O que a sociedade civil faz está sendo reconhecido na política nacional, porque é parte da execução da política”, afirmou.
Para ela, a consolidação dos direitos da população LGBTQIA+ depende da ampliação dessa rede de proteção e participação social. “Este é o começo do nosso caminho”, concluiu.
Direitos conquistados exigem organização permanente
Antes do encerramento oficial das atividades, o presidente do Conselho Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+ e dirigente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), Zezinho Prado, reforçou a importância da organização social para garantir que os avanços conquistados nos últimos anos se transformem em políticas permanentes e alcancem a população LGBTQIA+ em todo o país.
Ao fazer um balanço do processo de reconstrução das políticas públicas voltadas à diversidade sexual e de gênero, Zezinho destacou conquistas como a recriação do Conselho Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+, a criação da Secretaria Nacional e a construção da Política Nacional LGBTQIA+, mas alertou que a consolidação desses avanços dependerá da participação ativa dos movimentos sociais, sindicatos e organizações da sociedade civil.
“Não basta apenas vivermos de encontros e reuniões fechadas nas quatro paredes. Isso é importante”, afirmou.
Segundo ele, o desafio agora é ampliar a presença da política pública nos estados e municípios, fortalecendo os mecanismos de participação social e controle democrático para que os direitos conquistados cheguem efetivamente aos territórios.
“Nós precisamos dos conselhos estaduais, mas nós precisamos muito dos municipais pra política chegar lá na ponta”, defendeu.
Em tom de mobilização, Zezinho ressaltou que a luta por direitos exige organização permanente e compromisso coletivo. “Nós vamos continuar, nós vamos cada vez mais cobrar, nós vamos querer avanço”, afirmou, sintetizando o espírito que marcou os quatro dias de debates, formação política e mobilização do 7º Encontro Nacional de Trabalhadores e Trabalhadoras LGBTQIA+ da CUT.
Exclusão LGBTQIA+ custa R$ 94 bilhões ao país por ano
Ainda durante o último dia de atividades do encontro, foi apresentado um estudo que evidencia os impactos econômicos da discriminação contra a população LGBTQIA+.
Pesquisa realizada pelo Banco Mundial em parceria com o Instituto Matizes aponta que a exclusão dessa população do mercado de trabalho custa ao Brasil cerca de R$ 94,4 bilhões por ano, valor equivalente a 0,8% do Produto Interno Bruto (PIB).
O levantamento mostra que as perdas econômicas decorrem principalmente do desemprego, da informalidade, da inatividade econômica e das desigualdades salariais enfrentadas pela população LGBTQIA+. Além disso, a discriminação gera impacto fiscal estimado em R$ 14,6 bilhões anuais, resultado da redução da arrecadação tributária e do aumento dos gastos públicos.
Entre os principais indicadores apresentados estão:
- taxa de desemprego de 15,2% entre pessoas LGBTQIA+, contra 7,7% da média nacional;
- informalidade atingindo 46% dessa população;
- entre 40% e 60% dos entrevistados relatando ter sofrido ou presenciado discriminação no ambiente de trabalho;
- entre 40% e 70% afirmando já ter ocultado sua identidade por medo de represálias;
- perdas salariais de até 13% para mulheres pretas LBTI+;
- índices ainda mais graves para mulheres trans negras, que registram desemprego até três vezes superior à média nacional.
Os dados reforçaram uma das principais conclusões presentes ao longo de todo o encontro: combater a LGBTfobia não é apenas uma questão de direitos humanos, mas também uma condição necessária para reduzir desigualdades, ampliar oportunidades e promover o desenvolvimento econômico e social do país.
Acesse a pesquisa completa: Estudo sobre impactos da exclusão LGBTI+ do mercado de trabalho no Brasil
Semana de formação, debates e mobilização
O encontro teve início na quinta-feira (4), com uma análise da conjuntura política nacional e dos desafios colocados para as eleições de 2026. Os debates destacaram a importância da participação política da população LGBTQIA+ e discutiram os riscos representados pelo avanço da extrema direita e dos discursos de ódio.
Ainda no primeiro dia, foi apresentada a campanha permanente da CUT de combate ao feminicídio, “Pela vida das mulheres, a luta é de todos”, ressaltando a necessidade de ações que contemplem também mulheres trans e travestis.
Na sexta-feira (5), as discussões se concentraram nos desafios enfrentados pela população LGBTQIA+ no mundo do trabalho. Especialistas debateram a exclusão de pessoas trans do mercado formal, o assédio e a discriminação nos ambientes profissionais e a necessidade de ampliar políticas de inclusão.
O dia também foi marcado pelo lançamento da cartilha “Serviço Público com Orgulho“, da Confetam, e por um debate sobre a importância da formação sindical como instrumento para ampliar a participação da população LGBTQIA+ em espaços de direção e tomada de decisão dentro das entidades sindicais.
Ainda na tarde da sexta-feira, trabalhadores e trabalhadoras participaram da 2ª Marcha Nacional LGBTQIA+ da Classe Trabalhadora, realizada no centro da capital paulista. O ato levou às ruas reivindicações como o fim da escala 6×1, a redução da jornada de trabalho sem redução salarial e o combate à violência e à discriminação nos locais de trabalho.
Já no sábado (6), o foco esteve voltado à transformação de diagnósticos em políticas públicas, com debates sobre desigualdades socioeconômicas, participação social e os desafios da implementação da Política Nacional dos Direitos das Pessoas LGBTQIA+.
CUT participa da Parada com bloco próprio
As atividades do 7º Encontro Nacional de Trabalhadores e Trabalhadoras LGBTQIA+ da CUT serão concluídas neste domingo (7), com a participação da Central na Parada do Orgulho LGBTQIA+ de São Paulo, considerada a maior do mundo.
Integrante oficial da organização do evento, a CUT participará da mobilização com um bloco próprio, levando às ruas as bandeiras debatidas ao longo dos quatro dias de encontro: trabalho digno, combate à discriminação, democracia, participação social e ampliação dos direitos da população LGBTQIA+.
A presença da Central na Parada simboliza a continuidade da mobilização construída durante toda a semana e reafirma o compromisso do movimento sindical com a defesa da diversidade, da cidadania e da igualdade de direitos para toda a classe trabalhadora.














