Uma pesquisa inédita divulgada pelo jornal O Globo neste domingo (30) revela que os brasileiros não querem escolher entre estabilidade e autonomia quando pensam em melhores condições de trabalho. Em meio ao crescimento das atividades por aplicativos, das contratações como pessoa jurídica e de outros vínculos flexíveis, os trabalhadores demonstram buscar liberdade para organizar a rotina, mas sem abrir mão de segurança, direitos e proteção social.
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Realizado pelo instituto Ideia, o levantamento ouviu 1.500 pessoas em todo o país e tem margem de erro de 2,5 pontos percentuais. Os dados foram obtidos com exclusividade por O Globo e colocam as relações de trabalho entre os temas que devem ganhar destaque na campanha presidencial de 2026.
Quando perguntados sobre o que representa uma condição de trabalho melhor, 21,3% dos entrevistados mencionaram a estabilidade no emprego. A possibilidade de ter autonomia e trabalhar no próprio negócio foi apontada por 16,2%, enquanto 13,1% destacaram a liberdade para definir os horários.
Em outra pergunta sobre a condição considerada mais importante, a estabilidade voltou a liderar, com 27,7%. Na sequência aparecem plano de saúde, com 24,1%; flexibilidade de horários, com 19,7%; férias e descanso remunerados, com 18,2%; possibilidade de ser o próprio chefe, com 16,3%; e trabalho remoto ou híbrido, com 15,1%.
Os resultados indicam que o trabalhador brasileiro deseja combinar elementos historicamente associados ao emprego formal, como estabilidade e benefícios, com flexibilidade e autonomia. Na avaliação de Cila Schulman, CEO do instituto Ideia, essa combinação expressa uma busca mais ampla por qualidade de vida.
Os dados também mostram que a procura por segurança está presente entre diferentes categorias. A estabilidade foi citada por 29,9% dos servidores públicos, 23,4% dos trabalhadores assalariados e 20,1% daqueles que não pertencem a nenhum desses grupos, como autônomos, trabalhadores por aplicativos e contratados como PJ.
Entre os trabalhadores com vínculos mais flexíveis, a autonomia e a possibilidade de manter o próprio negócio aparecem com 24,8%, ligeiramente à frente da estabilidade. Já entre os empregados regidos pela CLT, a liberdade para definir os horários e o acesso a benefícios, como plano de saúde, foram mencionados por 16,2% cada.
Fim da escala 6×1 ganha força eleitoral
A pesquisa aponta que debates como o fim da escala 6×1, a redução da jornada, a regulamentação do trabalho por aplicativos, a ampliação do trabalho híbrido e a geração de empregos devem ocupar espaço importante na disputa eleitoral.
Para os pesquisadores ouvidos por O Globo, o fim da escala 6×1 deixou de representar apenas uma reivindicação trabalhista tradicional e passou a reunir demandas relacionadas ao descanso, à convivência familiar e à qualidade de vida.
O cientista político Josué Medeiros, coordenador do Observatório Político e Eleitoral da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), avalia que o tema tem potencial para ultrapassar a polarização política. Isso porque as necessidades econômicas e as condições concretas de trabalho podem influenciar a decisão do eleitor para além de sua identificação ideológica.
Embora a estabilidade receba maior apoio entre os eleitores identificados com a esquerda, ela também é valorizada nos segmentos de direita. O item foi citado por 25% dos lulistas, 27% da esquerda não lulista e por 19% tanto da direita bolsonarista quanto da direita não bolsonarista.
Maioria apoia remuneração mínima nos aplicativos
O levantamento também investigou a opinião dos brasileiros sobre a regulamentação do trabalho por aplicativos. Segundo a pesquisa, 62,1% defendem a criação de uma remuneração mínima para motoristas e entregadores.
O apoio diminui quando é apresentada a possibilidade de aumento no preço das corridas e entregas. Nesse cenário, 44,4% continuam favoráveis à medida, enquanto 16,8% passam a rejeitá-la e 38,9% não sabem responder.
Apesar do apoio ao pagamento mínimo, a principal prioridade mencionada para a regulamentação do setor é o acesso a seguro em caso de acidente, apontado por 19,5% dos entrevistados. Em seguida aparecem o reconhecimento do vínculo empregatício com as plataformas, com 14,6%; a remuneração mínima, com 12,4%; e o acesso à Previdência Social, com 10,1%.
Entre os trabalhadores que não são servidores nem empregados com carteira assinada — grupo que inclui motoristas e entregadores de aplicativos —, o seguro contra acidentes também ocupa o primeiro lugar, com 21%.
A pesquisa inédita divulgada por O Globo retrata, assim, um mercado de trabalho marcado por desejos que não são contraditórios, mas complementares. O brasileiro valoriza a autonomia e a flexibilidade conquistadas nas novas formas de ocupação, mas não aceita que elas sejam sinônimo de insegurança, precarização ou ausência de direitos. O desafio colocado aos candidatos e ao poder público será construir regras capazes de garantir liberdade, proteção social, renda digna e tempo para viver.
Fonte da matéria https://mundosindical.com.br/Noticias/View.aspx?ID=69822







