A redução da pressão da água durante o período noturno na Região Metropolitana de São Paulo voltou a acender o alerta sobre as condições do abastecimento e os efeitos da privatização da Sabesp. Desde 2 de agosto, a medida passou a ser aplicada das 21h às 5h, totalizando oito horas diárias, conforme determinação da Agência Reguladora de Serviços Públicos do Estado de São Paulo (Arsesp).
Segundo a própria Arsesp, a medida é preventiva e temporária e busca preservar os níveis dos reservatórios, que estão em estado de atenção devido às chuvas abaixo da média histórica. Durante o período diurno, das 5h às 21h, o abastecimento deve ocorrer normalmente, respeitados os níveis de pressão estabelecidos pela agência.
Para a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil em São Paulo (CTB-SP), entretanto, a situação não pode ser tratada apenas como uma questão técnica ou de economia de água. A central alerta que qualquer redução na qualidade ou regularidade do abastecimento atinge diretamente a população, sobretudo os moradores das regiões mais vulneráveis.
O presidente da CTB-SP, Rene Vicente, critica a medida e cobra transparência das autoridades responsáveis pelo serviço. “É um absurdo que a população tenha que conviver com a redução da pressão da água durante oito horas todas as noites. Estamos falando de um serviço essencial, indispensável para a vida, para a saúde e para a dignidade das famílias. A população não pode pagar a conta por problemas de gestão e por escolhas políticas que colocaram um serviço público essencial sob a lógica do mercado.”
Rene destaca ainda que o alerta não é novo. O Sindicato dos Trabalhadores em Água, Esgoto e Meio Ambiente do Estado de São Paulo (Sintaema) já havia denunciado, em agosto de 2025, a redução da pressão entre 21h e 5h e questionado os impactos da medida sobre o direito da população à água. Na ocasião, o sindicato afirmou que bairros da Grande São Paulo já enfrentavam falta d’água e problemas de baixa pressão.
Em boletim publicado naquele período, o Sintaema relatou casos de bairros que ficaram dias sem abastecimento, além de situações de baixa pressão e água turva, amarelada e com mau cheiro. O sindicato resumiu sua posição em uma frase que ganhou força na luta em defesa do saneamento público: “Água é vida, não é mercadoria”.
Em setembro de 2025, o Sintaema voltou a denunciar problemas relacionados à privatização da Sabesp, apontando falta de água, água suja, redução de equipes e precarização dos serviços. Para o sindicato, os impactos atingem principalmente a população mais vulnerável.
Para Rene Vicente, os alertas feitos pelos trabalhadores do saneamento precisam ser levados a sério. “O Sintaema vem denunciando há meses problemas de abastecimento, baixa pressão, água de qualidade inadequada e os efeitos do desmonte da Sabesp. Não podemos simplesmente aceitar que a resposta seja reduzir a pressão e pedir que a população economize água. É preciso discutir planejamento, investimentos, fiscalização e, principalmente, qual modelo de saneamento queremos para São Paulo.”
Água é direito, não mercadoria
A CTB-SP também questiona os efeitos da privatização da Sabesp sobre a prestação de um serviço essencial. O Sintaema tem mantido uma atuação crítica ao modelo de gestão privada e afirma que a empresa passou a priorizar interesses financeiros em detrimento da qualidade dos serviços prestados à população. Em julho de 2025, o sindicato já denunciava aumento de tarifas, demissões, precarização e problemas na prestação dos serviços após a privatização.
Em dezembro de 2025, ao fazer um balanço de sua atuação, o Sintaema reafirmou a crítica ao modelo privado e defendeu o saneamento público, destacando que água e saneamento são direitos universais e não mercadorias.
“Água não pode ser tratada como um produto qualquer. Estamos falando de um direito básico. Se há necessidade de preservar os reservatórios, é fundamental que o poder público apresente um plano claro, transparente e responsável para garantir o abastecimento, sem transferir para a população o peso das decisões de gestão”, afirma Rene.
A CTB-SP defende o fortalecimento dos mecanismos de fiscalização e controle social sobre a Sabesp e cobra da Arsesp e do governo estadual informações detalhadas sobre os impactos da redução da pressão, especialmente nas regiões onde o abastecimento já apresenta problemas.
A central também reforça a defesa de um modelo de saneamento comprometido com a universalização do acesso, a qualidade do serviço e o interesse público. “Não podemos naturalizar a falta d’água ou a redução da pressão como se fosse algo normal. A população paga pelo serviço e tem direito a receber água com qualidade e regularidade. Saneamento é um direito fundamental e deve estar acima dos interesses de acionistas e do lucro”, conclui Rene Vicente.
Fonte da matéria https://mundosindical.com.br/Noticias/View.aspx?ID=69788







