Economia se mede mesmo com gráficos cheios de setas pra cima e pra baixo?

 

Noticiário sobre economia, cada vez mais, se resume por números de difícil compreensão acompanhados por um preciosismo de linguagem excessivamente complexa.

 

 

Não por acaso, o público parece cada vez mais desinteressado em economia.

 

Antigamente, economia e política caminhavam sempre juntos, sendo impossível falar de um sem falar do outro, como “Buchecha sem Claudinho”.

 

Adam Smith e David Ricardo nunca escreveram sobre “economia”, mas sobre “economia política”.

 

Retirar a economia da política, sob o pretexto de torná-la uma ciência natural como a física ou a biologia, é tentar fazer parecer que, na economia, como na física ou na biologia, as coisas “são porque são” de acordo com leis universais (aquelas da oferta e da procura) e não há nada que possa ser feito.

 

Parafraseando Thanos, “o teto de gastos é (fundo musical dramático) … inevitável”.

 

Essa divisão é tão escancarada que a seção de economia do jornal fica separado da capa, onde fica a política, dividindo seu espaço com assuntos internacionais e futebol. Ou seja, todo mundo passa voado pelas notícias do PIB pra ver se o Gabigol joga ou não logo mais.

 

De todo modo, isso não é uma crítica a quem ignora esses números e aqueles gráficos cheios de setas pra cima e pra baixo.

 

Afinal de contas, tais números e gráficos dizem alguma coisa, ou dizem algo de maior relevância do que a escalação do Gabigol? Muito pouco.

 

Por exemplo, o PIB per capita é uma métrica que pega o PIB nacional e divide pela população total como se todos, cada um, recebesse igualmente um cheque com sua fatia do PIB. E se parecer pra você, caro leitor, que isso pode soar um tanto arbitrário, é porque é totalmente arbitrário.

 

Mesmo que alguma versão de PIB já existisse desde o século 17 e 18, esse PIB de hoje é fruto do trabalho de Simon Kuznets elaborado para um relatório comissionado pelo Congresso americano em 1934.

 

O próprio Kuznets, sabendo do pouco rigor científico de sua criação, era contra seu uso indiscriminado.

 

No próprio relatório, Kuznets alerta: “A valorosa capacidade da mente humana para simplificar uma situação complexa em tal compacta caracterização se torna perigosa… distinções devem ser feitas considerando qualidade e quantidade de crescimento, entre custos e retornos, a curto e a longo prazo”.

 

A verdade é que hoje a economia hoje não passa de uma grande ciência contábil sobre a qual economistas tratam das “grandes contas nacionais”, como PIB, juros e desemprego em um abrangente balanço patrimonial do país.

 

Ao invés de perguntar “quanto” fora produzido ou vendido em um ano, economistas deveriam perguntar “como” aquilo produzido ou vendido foi aproveitado pelo povo, pela natureza, pelo país de maneira geral.

 

Se o PIB cresce 7%, isso significa que uma vida bem-vivida, proveitosa, feliz, sossegada, aumentou entre 7% de brasileiros? Ou, 7% seria um aumento na “bem-vivência” da vida bem-vivida dos brasileiros?

 

Isto é, a questão central seria em avaliar como a vida econômica impactaria a vida política, ou vice-versa, dos cidadãos brasileiros.

 

Porém, ocorre que, no Brasil, cada vez temos menos cidadãos: menos brasileiros estão inseridos no Estado nacional com menos participação na gestão de suas próprias vidas, seja econômica ou seja política.

 

*Gabriel Frossard Barbosa é formado em administração pública. Tem mestrado em política e gestão pública pela Georgetown University, nos EUA