Ciro ou Lula? O que podemos esperar, por André Nunes

 

O primeiro discurso de Lula depois da anulação de sua condenação, transmitido ao vivo, deixou claro que o ex-presidente continua sendo um exímio animal político. 

 

 


Lula falou como estadista, não se deixou levar por devaneios liberais e pautas que não estão na ordem do dia da maioria do povo. De forma inteligente demonstrou que ainda tem grande apoio internacional. Começou agradecendo o presidente argentino, deixando claro que esse o visitou quando ainda estava privado de liberdade e foi o primeiro a telefonar após a decisão da anulação das condenações. 

 


Em um aceno à igreja católica, deixou claro que foi recebido pelo próprio Papa no Vaticano, e que conversaram durante um bom tempo sobre os problemas e desigualdades do mundo. Foi também um recado para a mídia, todos sabem que o Papa muitas vezes reserva pouco tempo até mesmo para Chefes de Estado em mandato vigente, mas para receber o ex-presidente do Brasil sua Santidade teve tempo.

 


Bateu em Bolsonaro de maneira inteligente, em questões caras para a população brasileira: emprego e saúde. Atacou a postura anti científica do mentecapto, a falta de responsabilidade e negligência generalizada com a saúde pública. Defendeu as empresas públicas e o Estado como indultor do desenvolvimento, o investimento público para geração de emprego e renda.

 


Falou para as massas, para os mais vulneráveis, mas também para os pequenos empresários, pequenos agricultores ávidos pro crédito para sobreviver e tocou num tema geralmente deixado de lado pelo PT, a necessidade de industrialização do Brasil.

 

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Deixou claro que a Lava-Jato destruiu milhões de empregos e causou prejuízos bilionários ao Brasil, entregando os contratos de empresas brasileiras para conglomerados estadunidenses. Resgatou o discurso anti-imperialista demonstrando que os interesses dos Estados Unidos trabalham contra os interesses do Brasil.

 


É nesse ponto que Lula deixa Ciro Gomes em um beco, talvez sem saída. Ciro, nos últimos anos, teve a questão nacional, a indústria e, por consequência, o emprego, além da necessidade de desenvolver tecnologia própria para competir com as potências  estrangeiras como pontos chave do seu discurso.

 


Se Lula realmente abraçar a questão nacional (pode ser que o tempo em que esteve enclausurado o tenha feito refletir sobre), a necessidade do desenvolvimento de tecnologia, de proteger nossos mercados e nossa indústria incipiente, vai deixar Ciro Gomes a ver navios, pois o petista ainda tem mais capital político, queiramos ou não.
Lula discursou como um verdadeiro Chefe de Estado, parece estar bem de saúde e suas posições estão muito mais firmes do que antes de sua prisão, quando apresentava um discurso frágil e sem inovações, o qual transparecia que a prisão iminente estava minando suas forças.  

 


Ciro ou Lula? O campo nacionalista deve ter ciência que nenhum dos dois políticos é o caudilho anti-imperialista que necessitamos para colocar as riquezas do Brasil em prol do nosso povo. Ambos tem grandes limitações. A diferença é que Lula e o PT já foram testados e as limitações são comprovadas.

 


Apesar do PT ter uma política externa independente, foi permitido a privatização de campos de petróleo durante o governo Dilma, e os dois presidentes petistas colocaram banqueiros para comandar a política econômica do país e proteger o rentismo. Em 13 anos o PT não promoveu mudanças estruturais no Brasil, apenas distribuiu migalhas enquanto foi permitido. Formou consumidores, não formou cidadãos. Não regulou a mídia e não criou grandes meios alternativos de comunicação, permitindo uma campanha midiática que levou ao impeachment de Dilma e prisão de Lula. Além de realmente a cúpula do partido ser, no mínimo, conivente com os quadros envolvidos em corrupção. O resultado da política de conciliação total com o sistema culminou na desastrosa eleição de Jair Bolsonaro.

 


Ciro Gomes cometeu o erro de aderir à pautas socialmente liberais, buscando um eleitorado mais moderno se afasta progressivamente das massas, e por mais que tenha feito críticas duras e justas, denunciando a cretinice de alianças espúrias do PT com os maiores bandidos da República, que colocou plutocratas como Michel Temer e Eduardo Cunha como peças poderosas do Poder executivo e legislativo, parece querer adotar o mesmo caminho, o da conciliação com outros tipos de canalhas, com Maia e Kassab, com partidos como o DEM, ou seja, liberais que trabalham diariamente para desgraça do povo brasileiro. Se continuar nesse sendero vai encolher.

 


Os defensores de Lula e Ciro, que muitas vezes se digladiam nas redes sociais, se portando como tietes, ao escutarem as denúncias sobre as alianças espúrias curiosamente utilizam a mesma desculpa: "ninguém consegue governar sem alianças".

 


Para os derrotistas de plantão, a história está coalhada de exemplos em que os Chefes de Estado se aliaram diretamente com o povo e com forças políticas confiáveis, ao invés de ceder tudo pelo poder. Dependendo da popularidade é possível empreender grandes mudanças enfrentando os interesses de castas privilegiadas. Lula já teve a popularidade necessária para isso, e, infelizmente não enfrentou, prefiriu conciliar.

 


Ciro ou Lula? Os dos líderes são apenas social democratas, de nenhum dos dois virá um projeto revolucionário. Cabe a nós a posição defensiva de apoiar num eventual segundo turno qualquer dos dois que seja o adversário de Jair Bolsonaro.
Devemos ter a clareza que caso um dos dois políticos venha a ser presidente do Brasil, o campo nacionalista terá que cumprir o papel de vigilância permanente, de apoio crítico em alguma questões e oposição à qualquer retrocesso. Exigir a reconstrução do Estado Nacional, fazendo pressão através das bases de cada partido. 

 


Será uma tarefa árdua, a batalha está por vir.


Texto: André Nunes 
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